Sunday, 22 March 2009

Je n'aime que toi

"Um dos ciúmes é vermelho, bom!,
não sei se é possível ser tão decisivo
e será difícil perceber algum perigo,
ali perto, que dê razão a essa raiva:
muitas coisas são de um mistério
sempre insondável. O outro, amarelo,
é franzino e tem sinais, ligeiros,
de ser mais vivo, talvez dos nervos,
quem sabe lhe pesa o mundo, o género.
De qualquer modo, o primeiro é,
evidentemente, um menino matreiro
e chama-se mesmo Ciúme. Não tem
jeito para o poleiro e não é fácil
saber o que quer, de cabeça levantada
à aragem leve, com ar de quem gosta
de alpista e de suspeitas: nem todas
as pessoas que lêem sabem ler isso,
o que afunda na garganta de Ciúma,
talvez por causa da retórica, talvez
porque é sexo a mais, canto a menos,
uma ideia agitada de abordar as cores.
Trata-se, neste caso, de ciúmes
contemporâneos, amigos dos amores,
o Amor e a Amora, embora suspeite
que, dada a óbvia diferença do canto,
acabe tudo de forma ainda mais elaborada:
é preciso separá-los ou o desejo acaba,
para que serve o canto ou juntar
um e os outros quebra o encanto?
Este de que se fala, bem se vê, é fêmea,
astuta, elegante e a gostar de rapazes,
de ir a banhos, de se ver ao espelho.
Dizem, nessa casa, que é dada,
talvez um pouco leviana e que só
aguenta por causa das convenções,
o que a torna uma fera enjaulada,
capaz de tudo, amarela do Ciúme.
Esta história ainda vai durar: têm
é de acabar com isso dos géneros."

***Obrigado a Manuel Fernando Gonçalves.

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