Friday, 6 March 2009

Snow Patrol

VIRGINIA WOOLF

"Incomodava-a todo aquele jogo que ele fazia com as frases e disse-lhe, de um modo que não admitia réplica, que estava um fim de tarde perfeitamente maravilhoso. E que estava para ali a resmungar, perguntou-lhe ela, meio a sorrir, meio a lamentar-se, pois julgava saber o que ele estava a pensar naquele preciso momento – teria escrito livros melhores se não se tivesse casado.

Não estava a lamentar-se, disse ele. Ela bem sabia que não estava a lamentar-se. Ela bem sabia que não havia absolutamente nada de que pudesse lamentar-se. Pegou-lhe então na mão, levou-a aos lábios e beijou-a com tal intensidade que lhe vieram lágrimas aos olhos, para logo a seguir a largar rapidamente.

Viraram costasà paisagem e, de braço dado, começaram a subir o caminho por onde cresciam plantas pontiagudas de um verde prateado. O seu braço era quase como o de um jovem, ia pensando Mrs Ramsay, fino e robusto, e pensava também, com satisfação, como tinha uma constituição ainda forte para os seus mais de sessenta anos, e, indómito e optimista como ele era, como era estranho que, sabendo muito bem da existência de toda a espécie de horrores, isso parecesse não o deprimir e, pelo contrário, até o alegrasse. Não era esquisito?, cismava ela. Na verdade, ele parecia-lhe feito por vezes de matéria diferente da dos outros homens, cego, surdo e mudo para as coisas mais comuns e com um olhar de águia para tudo o que sai fora do comum. Os seus conhecimentos impressionavam-na muitas vezes, é certo. Mas reparava ele nas flores? Não. Prestava alguma atençãoà paisagemà sua frente? Não. Chegaria sequer a reparar na beleza da própria filha ou se no prato lhe tinham posto rosbife ou empadão? Sentava-seà mesa como alguém que estivesse a viver um sonho."

*O Sol Quando Nasce/26 de abril de 2006

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